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Área Reservada
Caminhando

Caminho de Fátima: Coimbra - Fátima

Finalmente chegou o dia da partida para completar o nosso Caminho de Fátima. O dia e ano tinham sido escolhidos por forma a chegarmos à capelinha na véspera das comemorações da terceira Aparição da Nossa Senhora aos Pastorinhos.

Depois das várias etapas percorridas desde a Igreja dos Capuchinhos, em Gondomar, até Coimbra, a ânsia de completar o Caminho foi crescendo nos oito dias que mediaram desde que os peregrinos tinham completado a última etapa: da Mealhada a Coimbra.

No dia nove de julho, às 5h45, junto à Câmara Municipal de Gondomar, encontravam-se os quarenta e três animados AMUT’eiros, de malas e bagagens aviadas para rumar a Coimbra, num autocarro cedido gentilmente pela autarquia.

A viagem, de cerca de 1h30, levou-nos até ao ponto de partida para aquele dia: Portugal dos Pequenitos, onde esperava por nós a Lúcia Sobral, a quadragésima quarta peregrina desta aventura. Apesar de estar agora a trabalhar numa Câmara distante, não deixou de querer fazer o apoio aos peregrinos ao longo do Caminho a partir daqui. O reencontro com a nossa colega e amiga foi de grande alegria e muito lhe agradecemos pela sua pronta e total disponibilidade em ajudar quem mais precisou em cada dia.

Apesar da hora madrugadora a que todos se tinham levantado, notava-se dinamismo, talvez causado pela ansiedade ou mesmo incerteza do que nos esperava ao longo dos próximos quatro dias de caminho em relação ao alojamento, ao trajeto e acima de tudo quanto à resposta dada pelo corpo e a alma.

Surpreendidos à chegada a Coimbra por uma chuva miudinha “molha todos” ou mais popularmente chamada molha “tolos”, foram se retirando os ponchos e outros equipamentos de abrigo. Mas quem já tinha feito outros caminhos com os AMUT’eiros já não se surpreendeu, já que o S. Pedro já vem tendo hábito de abençoar os AMUT’eiros nos primeiros quilómetros, regando a sua determinação e o seu empenho.

A primeira atividade foi fazer o jogo do “tetris” com as malas, retirando-as do autocarro e colocando-as na carrinha de apoio. Logo de seguida um primeiro “ajuntamento” frente à bela porta de entrada do Portugal dos Pequenitos para a tradicional e primeira foto de grupo, bem como as últimas recomendações do dia.

Mochilas às costas, alguns optam por dar início à etapa e outros a uma corrida aos cafés para o pequeno-almoço, confortando o estômago e prevenindo a pouca oferta prevista durante os cerca de 30 km da etapa deste dia.

Pouco depois de sairmos do centro de Coimbra, encontramos uma paisagem bem diferente, bem menos urbana, feita de pequenas aldeias onde quase não se encontrava vivalma, eram os cães e os gatos os anfitriões, manifestando-se à nossa passagem. Casas isoladas, a maioria de pequena dimensão, muitas com aspeto de estarem mesmo desabitadas, grandes áreas de campos agrícolas pouco cultivadas, florestas ou matas que gostávamos que fossem mais diversificadas (essencialmente eucaliptais) e rios com pouca ou nenhuma água. As escassas pessoas que fomos encontrando eram muito afáveis, sempre disponíveis para dois dedos de conversa, oferecendo frequentemente o que tinham para nos animar (um café, um copo de água ou outra bebida mais “energética”, fruta…) e tentando nos convencer que o melhor seria ir pela estrada e não seguir as setas azuis. Quando explicávamos que queríamos ir pela natureza, ao encontro das florestas e campos olhavam para nós com um ar um pouco desconcertado… “Vão caminhar muito mais quilómetros…” diziam-nos, se forem pela estrada é mais rápido. Mas o que nos importa não é ir mais rápido é ir com segurança e pelos lugares mais belos.

Estando nós no mês de julho, as áreas agrícolas estão mais amareladas, exceção feita das vinhas, árvores de fruto e dos milheirais, que são uma boa parte da produção agrícola por estas bandas. Até Conimbriga a floresta é constituída maioritariamente por eucaliptais, sentindo-se um calor estranho e que entristece quem ama caminhar nas nossas matas tradicionais portuguesas, sentindo a frescura e a transmissão de energia na presença da biodiversidade.

A ausência da chuva, desde o último inverno, é notória ao galgarmos alguns quilómetros na margem de um rio completamente seco. Restava o leito moribundo com algas secas a cobrir as pedras e a esperança que a água volte a dar-lhe vida. Desde Conimbriga até ao final da etapa do primeiro dia, temos ainda um percurso de cerca de 12 km. Grande parte desta distância é feita junto ao Rio Caralio Seco (Caralium Secum) que é referido no livro “Penela História e Arte” de Salvador Dias Arnaut e Pedro Dias, mais conhecido por Rio Pau, Ribeira de Alcalamouque, Rio dos Mouros… A respeito deste rio dizem ainda os autores: “… No verão, pedras musgosas no leito (por vezes musgo negro, feio), lagartos e cobras ao sol. No inverno súbita fúria. Invade os campos, tenta roubar azeite e ovelhas, leva consigo latas, roupas, pneus, cestos, tudo o que vorazmente apanha; e vai pendurando na selva do vale estreito e medonho a montante de Conímbriga e ao som pavoroso que dá no Esguicho, plásticos, farrapos, que ali ficam no alto a adejar sinistramente.” Enfim, um rio com características muito próprias das regiões cársicas em que as águas das chuvas são rapidamente absorvidas pelo solo e por esse motivo o leito do rio, em algumas zonas do seu curso, se encontra frequentemente sem água e a justificar assim o seu nome de Carálio Seco.

Chega ao fim o primeiro dia de Caminho no Café Bonito, em Rabaçal, com a chegada paulatina dos peregrinos, juntando-se em torno de bebidas refrescantes e sandes de queijos típicos desta aldeia, onde a passagem dos Romanos ainda é bem visível.

Na hora marcada, lá estava o autocarro para nos levar para o “quartel-general”, onde iriamos pernoitar as próximas 3 noites: o Hotel Pombalense. Um lugar agradável onde fomos muito bem acolhidos, bem no centro da cidade de Pombal, onde, quem teve coragem e força para tal, no final do jantar pôde usufruir da localização central para ir até às esplanadas locais.

O caminho é feito para ser vivido com todas as surpresas, diversidades e particularidades de cada um. Neste primeiro dia, comemoramos o aniversário de casamento, festejos que só terminaram com um “beijo à artista” dos pombinhos Fátima e António, perante as palmas e alegria do grupo.

No segundo dia, estávamos prontos para completar a segunda etapa desta missão que nos levaria do Rabaçal até Ansião e teria ainda ao propósito de festejar as sessenta primaveras do AMUT’eiro César e, acreditem, energia não faltou, nem para uma coisa nem para a outra. Ao longo de todo este dia, por tudo e por nada, lá se ouviam os “parabéns a você” (não foram alcançadas as sessenta vezes…) e o nosso sexagenário lá agradecia uma vez e outra e outra, já emocionado com tanto carinho.

Esta foi a etapas mais curta de todo o Caminho desde que iniciamos em Gondomar. Apenas dezanove quilómetros que foram completados, por quase todos ainda antes do almoço. Um dos percursos mais belos também, com passagem por uma floresta que encantou a todos com os seus carvalhos centenários de braços longos envolventes, que chamavam a um abraço, a um encontro ainda que fugaz para sentir a força da natureza, a intemporalidade que ali se vive. Não deixou nenhum peregrino indiferente. Que belo presente para todos, até mesmo para quem fez anos neste dia!

Durante o jantar ocorreu uma festa surpresa (organizada ao longo do dia), com bolo, bebidas, prendas, algumas muito criativas, beijos e abraços, novamente a cantilena e muitas fotografias… Garantiu-nos o aniversariante que esta data ficará na memória dele para sempre…

Ao longo deste dias de peregrinação, o jantar foi a refeição onde se reuniam todos os AMUT’eiros, fazendo destas ocasiões o momento de grande convívio, reforçando os laços de amizade e de relaxamento que fazem esquecer o desgaste provocado pelas dezenas de quilómetros percorridos debaixo de elevadas temperaturas.

O terceiro dia correspondeu à etapa mais longa de todas, em que, partindo de Ansião, teríamos de percorrer trinta e dois quilómetros até chegar a Caxaria. Uma etapa longa, que alguns sentiram quase como interminável, sob um calor tórrido. Os eucaliptos voltavam a fazer o seu aparecimento, tornando o ar em alguns momentos quase irrespirável. Os avisos, feitos na véspera, de que esta seria uma etapa difícil, preparou a todos para “o pior”. Munidos de força extra, vinda não se sabe bem de onde (será?!), juntos num mesmo propósito, completamos corajosamente esta etapa, encontrando-nos com as múltiplas serrações existentes nesta vila. Alguns, que tinham completado a etapa de forma mais veloz, a meio da tarde aproveitaram a passagem dos comboios por ali e regressaram mais cedo ao quartel-general. Os restantes esperaram pelo autocarro, que nos deixou, pelas sete e meia da tarde, no Hotel Pombalense.

Neste terceiro dia estávamos cansados, mas um banho retemperador, algum descanso e saber que o dia seguinte seria a nossa última etapa, permitiu que a boa disposição não faltasse ao encontro no último jantar em Pombal. Também se juntou a nós neste dia uma ilustre AMUT’eira, que quatro anos antes tinha completado o Caminho de Santiago da Costa connosco e, como bem disse ao chegar “uma vez AMUT’eira, AMUT’eira para sempre”. A senhora Vereadora Dra. Sandra Almeida, fez questão de arranjar tempo na sua agenda bem preenchida com todos os eventos da Cidade Europeia do Desporto, para completar a última etapa com os peregrinos a Caminho de Fátima.

Os caminhos que calcorreamos durante estes dias deixaram as suas marcas, quer pelo acumular dos dias, quer pela multiplicidade paisagística e duração dos percursos, quer pela diversidade dos relevos dos trajetos, quer ainda pelas temperaturas elevadas a que fomos sujeitos. No entanto a última etapa, não sendo a mais longa, talvez por ser a derradeira, foi sentida por todos como a que causou mais desgaste físico e emocional. Os últimos oito quilómetros foram de uma dureza tal que levou quase à exaustão do grupo, contribuindo fortemente para isso o calor tórrido do meio-dia a coincidir com uma subida íngreme e interminável, em terra batida, que secava as gargantas. A finalizar o alcatrão até ao restaurante onde podemos refrescar e saciar o estômago, já encostado às costas.

Os diferentes ritmos de andamento e opções de viver o caminho, fez esticar o grupo no terreno, e a chegada faseada proporcionou numa melhor gestão no restaurante, conforme se chegava, almoçava-se e partia-se dando o lugar aos seguintes.

O Hotel dos Capuchinhos, local de estadia para a última noite, ficava a umas centenas de metros do local de almoço, que foram feitos num pulo. Para alguns havia ainda a aliciante do reencontro com amigos e familiares que quiseram nos vir “resgatar”, partilhando connosco o momento de emoção da chegada dos peregrinos.

Após uma corrida aos quartos para um banho e vestir as t´shirts brancas com o logotipo da Cidade Europeia da Cultura, oferecidas pela Câmara Municipal de Gondomar, os AMUT`eiros juntaram-se com os amigos e familiares, na entrada dos Capuchinhos para a foto de grupo.

Iriamos então completar os últimos metros (cerca de quinhentos) até à Capelinha das Aparições. Chegando à entrada do recinto, todos se deram as mãos, formando um cordão de cumplicidade, partilha e emoção. Os corações batiam descompassados, após nove etapas, cerca de duzentos e cinquenta quilómetros caminhados, estávamos a entrar no recinto sagrado de Fátima, todos juntos. As lágrimas corriam em muitos rostos… formamos um círculo no meio de recinto e juntos, corremos até ao seu centro, de mãos unidas, gritando em uníssono “Que alegria!”, por três vezes, numa grande explosão de emoções que terminou com abraços, beijos, lágrimas e sorrisos rasgados.

A partir daí, em grupo ou individualmente, cada um participou nas cerimónias que entendeu e cumpriu as suas promessas.

Às 20h00, novamente reunidos, partilhamos a última ceia, num misto de missão cumprida, cansaço e alegria do encontro com os companheiros desta viagem.

Antes de recolher aos aposentos para o merecido descanso, quem teve essa vontade pôde retornar ao santuário para assistir às cerimónias noturnas ou ainda para um passeio de descontração muscular ou repouso num espaço confortável para uma conversa amena.

A Cerimónia do Adeus à Virgem foi de uma beleza e emoção extraordinária. O recinto estava coberto de velas que mais pareciam um céu estrelado de almas em oração. Um momento inesquecível para os olhos e o coração!

No dia seguinte o acordar foi feito ao ritmo individual, o percurso estava concluído, agora era cumprir os desejos, as promessas, compromissos ou apenas meditar.

O ponto de reencontro com todos os AMUT`eiros estava marcado para as treze horas, na sala de refeições do hotel dos Capuchinhos, onde podemos saborear o almoço, já descontraídos e muito mais repousados.

O almoço decorreu, como é habitual, num enorme convívio entre os peregrinos, familiares e amigos.

No final desta última refeição partilhada, deu-se início a uma cerimónia surpresa: a entrega dos certificados de participação dos “Peregrino dos Caminhos AMUT’Fátima 2017”, entregues pela presidente da AMUT, Ângela Pereira e o Edmundo Ribeiro, organizadores principais deste Caminho. Num palco improvisado para o efeito (uma cadeira), todos foram chamados individualmente para receber, não só o certificado, mas também algumas palavras doces sobre as suas principais caraterísticas e um abraço bem apertado.

Este momento tornou-se extremamente emotivo, ficou patente na intervenção dos galardoados toda a carga de sentimentos registados durante estes dias, através das mensagens transmitidas pelos próprios que, sem tempo de preparação extravasaram o que lhes ia na alma depois desta grande a maravilhosa aventura. Frequentemente se apresentaram, sem pré-aviso algumas lágrimas de emoção, entremeadas de muitos sorrisos e gargalhadas, não deixando ninguém indiferente, todos sendo saudados e confortados com palmas e abraços à sua passagem.

A hora era de regressar a casa, por isso foram recolhidos todos os haveres e colocados nos dois autocarros que lá se encontravam, gentilmente cedidos pela Câmara Municipal de Gondomar, a quem muito agradecemos na pessoa do Senhor Presidente da Câmara, Dr. Marco Martins, por todo o apoio. Antes da partida, todos se dispuseram nos degraus da porta de entrada do Hotel dos Capuchinos para uma foto, acompanhada de “manifestos vocais” de companheirismo e cumplicidade.

A viagem decorreu debaixo de intenso calor, mas nada que os felizes peregrinos estranhassem, os últimos dias tinham sido passados à mesma temperatura, mas a caminhar. Por isso se distraíram com a convivência, a partilha dos momentos de maior registo destes dias intensos vividos em conjunto. Assim chegamos a Gondomar com o espírito de missão cumprida e mente repleta de sensações que ficarão gravadas para a eternidade.

Na chegada à Câmara Municipal de Gondomar, ainda houve ânimo para a última foto de grupo, às portas dos Paços do Concelho, finalizando assim esta aventura, iniciada três meses antes. Foram feitas as últimas ondas de alegria, dados os últimos abraços e feitas promessas de reencontro pois os caminhos são infinitos e quem experimenta fica com vontade de regressar…

A AMUT agradece a todos os que fizeram uma, algumas ou todas as etapas deste Caminho AMUT’Fátima 2017, pela sua participação, pelo seu apoio, pela sua alegria. Agradecemos a todos os que não caminhando connosco nos acompanharam com boa energia e dando força para chegássemos todos ao nosso destino. Assim se percebe que juntos os Caminhos são mais fáceis e belos de percorrer.

Finalmente, agradecer a N.ª S.ª de Fátima a companhia permanente e a força dada a todos os peregrinos para que tudo corresse de forma abençoada.

Tottus Tuus Maria!