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Área Reservada
Caminhando

Picos da Europa

Era uma vez …

Foi frente à Câmara Municipal de Gondomar, na quinta-feira, dia 26 de maio de 2016, que um fervilhar de alegria se fez sentir, ainda faltavam quinze minutos para as seis horas da madrugada, hora apontada para a partida. Ali se osculavam gentes munidas de malas, bastões (de caminheiros) e estranhamente vestidas de camisolas de um verde alface luminoso, onde se lia: “Picos da Europa, AMUT Caminhando 2016”.

Pois é… Tratava-se dos AMUT`eiros ! Finalmente tinha chegado o tão desejado dia da aventura aos Picos da Europa, a cerca de 650km de Gondomar, numa viagem de mais de dez horas.

Às seis em ponto, cumpridas todas as formalidades, deu-se o arranque para um fim-de-semana que se revelou ser de deslumbramentos permanentes, bem como de constante boa disposição.

Com lotação esgotada no autocarro, a primeira paragem ocorreu em Chaves, local escolhido para o pequeno-almoço, tendo os viajantes aproveitado para repor algumas das horas de sono ainda por dormir até ali.

“O Forno Regional de João Padeiro” foi um dos locais mais visitados, onde os famosos e tradicionais pastéis e folares de Chaves foram os eleitos já a pensar no almoço. Com o pequeno-almoço tomado e os músculos descomprimidos, ainda houve tempo para a primeira foto de grupo antes da partida, registada pelo nosso excecional motorista, Sr. Horácio que, conforme irão verificar, rapidamente se tornou AMUT’eiro também. Foram-lhe colocadas nas mãos e penduradas ao pescoço máquinas e telemóveis, fazendo-o parecer um verdadeiro fotógrafo profissional a disparar para o grupo sem dó nem piedade!

De volta ao autocarro, avançamos em direção à cidade espanhola de Léon, a cerca de 260 km de distância dali, ou seja, mais três horas de viagem. Ao chegar, a fome já apertava e cada um encontrou o local que mais lhe agradou para satisfazer o apetite.

De estômago mais “compostinho”, cada um dirigiu-se ao centro histórico desta magnífica cidade castelhana para conhecar os edifícios emblemáticos. Pela amostra das fotografias e relatos, os AMUT´eiros estiveram bem ocupados no tempo estipulado para aquele local.

Muito ficou por ver, mas os ainda 230km que ainda faltavam cobrir até Arenas de Cabrales falaram mais alto e levaram o grupo a seguir viagem.

De novo em marcha, as paisagens sucediam-se à velocidade da deslocação que o Sr. Horácio imprimia ao autocarro, fazendo os viajantes colarem os olhos às vidraças das janelas e alimentarem a curiosidade, ou aproveitarem para cumprir a tradição espanhola da “siesta”.

O caminho restante foi passado com o olhar pregado no exterior. Finalmente começavam a aparecer as paisagens ansiadas dos Picos, com as suas neves eternas nos cumes! O espanto pela beleza que se espraiava frente aos olhos dos viajantes, levou a que o nosso destino chegasse sem que ninguém se apercebesse, mesmo depois de iniciada a viagem há mais de 12 horas, em Gondomar.

Chegamos ao Hotel Arenas de Cabrales, onde a Tanti nos aguardava ansiosamente e procedemos rapidamente ao check-in. Os AMUT’eiros levaram as suas bagagens para os quartos e desceram para o restaurante, onde nos esperava uma excelente refeição, servida por gente bem simpática. Depois do repasto, embora já com alguns sinais de cansaço, foi feito o briefing, com os conselhos bem úteis da nossa guia, Elisabete Almeida, relativamente ao trilho pedestre do dia seguinte: a “Ruta de Cares”.

Conhecido como a “Garganta Divina”, este trilho foi literalmente talhado na rocha da montanha, num trajeto maravilhoso, de um pouco mais de onze quilómetros, que junta as aldeias de Caín (León) e Poncebos (Asturias).

Após as informações e recomendações prestadas, a maioria recolheu aos aposentos, tendo os mais irrequietos optado por um passeio pelas ruelas da pequena vila, para saborear a famosa Sidra da região, uma visita ao “vinte e um” ou consolar a alma com umas bebidas refrescantes no quarto.

Após uma noite repousante e o pequeno-almoço tomado, seguimos para Poncebos, local de partida para o trilho mais emblemático dos Picos da Europa. A viagem foi curta, apenas 6 km distavam do nosso hotel, mas os caminheiros fizeram a viagem boquiabertos com a beleza da paisagem que espreitava pelas amplas janelas do autocarro. Tirada a tradicional foto de grupo do dia, todos estavam ansiosos por iniciar a caminhada. O trilho, conforme nos tinha avisado a Elisabete na véspera, não se apresentava fácil: de imediato deparamo-nos com uma subida íngreme, originando um forte aquecimento muscular e uma aceleração do batimento cardíaco, que levaram as Amigas da Bolha a “pequenas” paragens estratégicas.

À nossa frente um cenário incrível, as Montanhas a rasgar o céu, as falésias e os precipícios iluminados por um Sol quente e esplendoroso, contrariando as previsões de chuvas e trovoadas que nos tinham anunciado, levando cada um a agradecer a bênção de estar ali, sentir o quanto somos pequeninos face à grandiosidade da Natureza e o quanto os AMUT’eiros são felizes quando se juntam.

Esperava-nos, para começar, uma subida íngreme, com cerca de 4 km, por um caminho estreito, de pedras soltas. Caminhamos, encostados a uma montanha com uma altura imponente, do nosso lado direito, e, do lado esquerdo, com uma ravina tão bela quanto assustadora, onde o rio serpenteava, tão lá no fundo, que mais parecia uma linha fina desenhada cuidadosamente pelo Criador.

Por força da tipologia e inclinação do percurso, a caminhada decorreu a uma velocidade bastante lenta. A beleza da paisagem ainda atrasava mais o avanço dos caminheiros, levando-os a cada passo a parar para tirar mais uma foto, aproveitar a frescura de um regato de água gelada, deslumbrar-se com a imensidão das montanhas com as neves eternas nos seus Picos. Havia ainda o encontro permanente com as atrevidas cabras montesas que se esgueiravam para cima das nossas mochilas para surripiar algo para comer. E depois havia os abraços com os companheiros para as selfies e outras imagens inesquecíveis.

Alguns membros das Amigas da Bolha, respondendo às solicitações do corpo, optaram por regressar ao ponto de partida, aguardando o regresso do grupo.

Um AMUT’eiro, embora fustigado pelas vertigens, insistiu em ultrapassar os seus medos e, agarrado à montanha e à mão auxiliadora da Elisabete, que lhe serviu de olhos, pés e até de fotógrafa, conseguiu fazer, pé ante pé, todo o trilho. Bem-haja a ela pelo apoio sem o qual tal feito não teria sido possível!

Após os primeiros quatro quilómetros, o trilho inverte a tendência e começa-se a descer até alcançar o Rio Cares. Perante nós, apresentam-se autênticas muralhas de pedras adornadas por árvores entrincheiradas nas suas fendas; seguimos o ziguezague do caminho, entramos em galerias cravadas na montanha, construídas para levar os canais da água de uma aldeia para a outra. Pequenas gotas de água gélida refrescam saborosamente a nossa pele tostada pelo tão desejado Sol.

Logo de seguida, sem nos apercebermos, avistamos a primeira ponte metálica suspensa a uma altura impressionante sobre o rio. A visão dos caminheiros a atravessá-la, que ao longe mais parecem formigas, é incrível.

O grupo foi chegando paulatinamente a Caín - os primeiros a chegar foram o Zé e o Sr. Horácio, que alcançaram o objectivo em pouco mais de duas horas. O local é uma minúscula aldeia, banhado pelo Rio Cares, de águas gélidas alimentadas pelo degelo das neves das montanhas, que atraiu de imediato alguns pés sobreaquecidos, enquanto outros optaram por se dirigir à esplanada do café para saborearem as tradicionais cañas e outras bebidas frescas.

O percurso sendo linear, e não havendo qualquer possibilidade do autocarro chegar até ali, apenas restavam duas possibilidades para voltar ao hotel: de táxi (percorrendo cerca de 100km) ou regressar pelo trilho, mas em sentido contrário até onde se tinha estacionado o autocarro. À exceção de cinco “forasteiros”, todos retomaram a Rota de Cares para Poncebos, mas agora num ritmo bem mais célere… Os primeiros a chegar, o Sr. Horácio e o Zé, fizeram os 11 km em menos de duas horas, conforme a promessa feita a eles mesmos, tão rápido caminharam que mais parecia que iam a correr!

A chegada ao autocarro foi feita em pequenos grupos, espaçadamente, originando repetidos momentos festivos promovidos pelos que já tinham alcançado a meta. Alguns, ainda com muita energia para gastar, fizeram-se ao caminho com a intensão de percorrer os 6 km até ao hotel, tendo sido entretanto recolhidos pelo autocarro, brindados pelos aplausos de quem lá se encontrava.

Chegados aos aposentos e depois do relaxante banho, os caminheiros dirigiram-se ao restaurante onde foram presenteados com um saboroso jantar, seguido de um serão, aproveitado de maneira destinta: enquanto uns se recolheram aos quartos, os mais obsessivos, como sempre, foram testar os limites, caminhando pelas ruelas, dançando ou simplesmente aproveitando a noite estrelada numa esplanada.

O terceiro dia começou cedo, e após o pequeno-almoço, seguimos de autocarro para apreciar mais uma pérola dos Picos da Europa: os Lagos de Covadonga. O percurso foi surpreendente por mais do que um motivo, desde o voo de uma águia que nos acompanhou por algum tempo, passando pelas dezenas de vacas de todos os tamanhos a salpicar de preto, branco e castanho o verde das pastagens, até à subida, a pique, para os lagos, feita através de uma estrada estreita que nos levou tão alto que parecia que íamos alcançar o céu!

O autocarro parou, descemos e a paisagem que perante nós se encontrava deixou todos boquiabertos! Mas ainda não tínhamos chegado ao topo da beleza daquele lugar. Seria preciso subir por uma escadaria de madeira, infinita, para alcançar o maior Lago de Covadonga: extraordinário! Bem no alto, parecia termos alcançado o paraíso das montanhas: o verde do planalto, o lago abraçado pelas montanhas, salpicadas de cabeças de gado amistosas e encimadas de neves eternas. Um deslumbramento para a alma e um elixir para os pulmões!

Terminada a visita, começaram a surgir umas nuvens cinzentas. Mas já tínhamos visto o suficiente e só tínhamos a agradecer a S. Pedro a gentileza de nos permitir vislumbrar o horizonte longínquo e a beleza daquele lugar mágico ainda sob o Sol. Iniciamos a descida da estreita e sinuosa estrada, causando arrepios sempre que tínhamos de cruzar com outro veículo, mas tudo correu bem, graças à enorme perícia e calma do nosso Sr. Horácio.

À chegada à Basílica de Santa Maria Real de Covadonga, a nuvens transformaram-se em chuva e baptizaram-nos levemente. Debaixo de uma chuva miudinha, fomos apreciar a beleza do santuário e da Gruta Santa, uma pequena capela cravada na montanha onde, segundo a lenda, sob a proteção de Nossa Senhora de Covadonga se terá iniciado a Reconquista da Espanha, com o milagre que Ela realizou socorrendo o Rei Don Pelayo e os pouquíssimos cavaleiros que estavam com ele nas montanhas das Astúrias, lutando contra os Mouros.

Do Santuário até Cangas de Onís foram 10 minutos de viagem, ainda debaixo de chuva. O autocarro foi impedido de continuar avenida abaixo já no interior da Cangas de Onís, por estar a decorrer uma prova de atletismo. De imediato os AMUT´eiros saíram, pois o estômago já começava a dar sinais de desconforto. Cada um foi sossegar a fome, antes de visitar os pontos de maior interesse desta aldeia de montanha, como seja a Ponte Romana ou a igreja de Nossa Senhora da Assunção.

O regresso ao nosso quartel-general, em Arenas de Cabrales, aconteceu já sem chuva, aproveitando a viagem para regalar mais uma vez os olhos com as deslumbrantes paisagens.

Estávamos ainda a meio da tarde, quando chegamos. Cada um aproveitou o restante tempo disponível até à hora do jantar para adquirir as tradicionais recordações; outros optaram por desprender os músculos pela aldeia e um grupo de cerca de doze AMUT’eiros foram visitar o Museu do Queijo Tradicional, onde, para além de verem como e onde o mesmo é fabricado, ainda tiveram oportunidade de o cheirar (uuuuiiiii!), provar (uuuuiiiiiii!) e… comprar (hmmmm!).

Anestesiados pelas aventuras dos últimos dias, e já com algum saudosismo, após o jantar, foi hora de queimar os últimos cartuchos noturnos longe de casa e aproveitar para partilhar alguns momentos bem agradáveis, a jogar cartas, contar anedotas, passear, dançar…

Era chegada a manhã da partida de regresso e, depois do pequeno-almoço, das compras de ultima hora e das malas carregadas no interior do autocarro, deu-se início à viagem de volta a Gondomar, com paragem para almoço marcado para Lugo. A permanência na cidade, com a sua muralha Património da Humanidade de Lugo foi rápida, almoçamos por ali e aproveitamos para uma pequena visita aos principais locais históricos. A última e brevíssima paragem deu-se em Tui, para as compras de última hora e resolução de “questões técnicas” nas casas de banho.

Rapidamente chegamos a Gondomar, onde alguns familiares e amigos nos aguardavam. Aproveitamos para a última fotografia de um grupo fantástico de AMUT’eiros, que fizeram desta aventura nos Picos da Europa uma recordação inesquecível de alegria, partilha e encontro e uma vontade gigante de regressar aos Picos. Um dia, quem sabe…

Os AMUT´eiros despediram-se amistosamente num “até já!”, pois o próximo encontro estava para breve, com destino às Terras de Miranda do Douro.