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Área Reservada
Caminhando

Moderno

No passado sábado 23 de Maio, pelas 14h30, reuniram-se os amantes da História no ponto de encontro previamente marcado: a Praça da Trindade, ao lado da Igreja com o mesmo nome, construída no século XIX, projeto de Carlos Amarante que deu o nome à praça.

Aqui iniciamos o nosso percurso pelo Porto Moderno, desfrutando uma briza amena junto ao chafariz da praça, onde a nossa querida historiadora, Dr.ª Maria José Ferreira fez um pequeno enquadramento histórico desta praça antes do século XVIII.

Aqui se encontrava então a Praça da Erva, até à construção de uma nova praça onde se encontravam as hortas do bispo. Da concretização deste projeto resultaria a Praça Nova, limitada a norte por dois palacetes, o Palacete de Monteiro Moreira e o de Morais Alão Amorim, encimado com a escultura “O Porto”, onde, entre 1819 e 1915, funcionaram os Paços do Concelho. A Oriente da Praça Nova encontrava-se já o Convento dos Congregados, construído no século XVIII, onde existia uma capela dedicada a St.º António e a Sul um tramo da muralha fernandina, destruída em 1788 para dar lugar ao Convento de Santo Elói, atualmente chamado Palácio das Cardosas.

Com a abertura da Praça Nova, no século XVIII, novas ruas também foram abertas entre as quais a Rua da Cruz (atual Rua da Fábrica), a Rua do Laranjal das Hortas (hoje desaparecida) que viria a ser conhecida como o Largo do Laranjal, onde existiam importantes propriedades, uma delas a da D. Antónia, a celebre “Ferreirinha da Régua”.

É precisamente no século XIX, que o Porto ganha nova dinâmica com a abertura da estação de Bento e com a ligação Porto/Gaia pela ponte de D. Luís. Era hora de tornar o Porto mais cosmopolita, sendo encomendado, em 1913, um projeto a Barry Parker, para criar um espaço que dignificasse o Porto: nasce a Avenida dos Aliados e a Praça da Liberdade.

Ao longo dos anos 20 e 40 do século XX, o arquiteto Marques das Silva ficou responsável pela construção da avenida, alterando o projeto inicial mais sóbrio de Barry Parker. Os palácios, onde funcionavam o Paços do Concelho, o Bairro do Laranjal, foram demolidos ou alterados, sobrevivendo apenas, como testemunho do século XIX, o "Passeio das Cardosas” conhecido pelo Clube dos Encostados ou o Pasmatório dos Loios, onde passeavam os “ pipis da tabela”, os “esticadinhos” de cabelo com brilhantina lançando piropos às donzelas que passavam.

Iniciamos o nosso percurso colocando-nos junto à Estátua de Almeida Garrett, de costas para o atual edifício onde se encontram os Paços do Concelho do Porto, projeto do arquiteto Correia da Silva, terminado por Carlos Ramos, aluno de Marques da Silva, vamos percorrendo os edifícios da avenida, retendo o nosso olhar nos prédios, onde vários arquitetos portuenses combinam influências gregas e romanas com ideias renascentistas, sob as indicações do arquiteto Marques da Silva, muito ao gosto da Beaux-Arts

Encontramos edifícios monumentais com fachadas na sua maioria elegantemente decoradas, criando um conjunto harmonioso, designado por “Boulevard do Porto”. No centro da avenida as esculturas de Henrique Moreira denominadas “Abundancia“, (comumente conhecida por “os meninos”) e “Juventude” (mais conhecida por “a menina nua da avenida”) que separa a Avenida dos Aliados da Praça da liberdade, tendo ao centro a Estátua equestre de D. Pedro IV. 

Depois de nos maravilharmos com os vários tipos de arquitetura, uns com linhas sóbrias sem decoração, como foi o caso da Garagem do Comércio, na Rua Elísio de Melo, do arquiteto Rogério Azevedo, ou o edifico de gaveto na Rua Rodrigues Sampaio, de Viana Lima e outros na avenida decoradas e coroados de lanternins, cúpulas e coruchéus, passamos por edifícios que outrora foram cafés. Estes espaços eram os principais pontos de reunião e tertúlia, eram uma referência do ambiente boémio que se vivia no Porto no início do século XX. Ainda hoje tenta perpetuar-se este ambiente no Café Guarany, um dos mais cosmopolitas cafés portuenses, localizado numa das esquinas da Avenida.

O Nosso percurso continua passando pelo Edifício do Hotel Infante de Sagres, com localização privilegiada, perto de um conjunto de ruas desde a Rua Galerias Paris, a Cândido Reis, a Conde Vizela, com vestígios, em algumas fachadas de edifícios, do gosto pelo estilo arte nova e outros personalizados com a assinatura de Marques da Silva. 

Quando chegamos à rua das Carmelitas não podíamos deixar de nos encantar com o edifício das Quatro Estações, cujo nome deriva dos quatro relevos representativos que encimam as quatro pilastras. Em seguida entramos na livraria Lello & Irmão, também conhecida por Livraria Chardron, cuja história remonta a 1869. A sua fachada neogótica apresenta duas figuras pintadas, representando a "Arte" e a "Ciência". O seu interior leva-nos a um mundo encantado. A sua escadaria, de acesso ao primeiro piso, imponente, convida-nos a subir, olhar os tetos trabalhados e o grande vitral que ostenta o monograma latim, a divisa da livraria: "Decus in Labore”(“dignidade no trabalho”).

Apesar do calor, o espírito de descoberta de pormenores é contagiante, descemos a Rua dos Clérigos, rumo à Rua Sá da Bandeira, outrora uma das ruas mais movimentadas, como o seu edifício de gaveto com a Rua 31 de Janeiro, recordando-nos o sinaleiro atarefado a colocar ordem no tráfego. 

De passagem vemos o Hotel Teatro, onde outrora existia o antigo Teatro Baquet, junto ao Teatro Sá da Bandeira, passamos pela Praça D. João I, em frente, o Palácio Atlântico e o Teatro Rivoli na lateral, relembrando a célebre frase “Júlio de Brito desenhou-o, Henrique Moreira adornou-o e Rui Veloso imortalizou-o”.

 

Quando chegamos à Rua Formosa, fomos conhecer o Palácio do Conde do Bolhão, tendo sido o nosso cicerone o famoso ator António Capelo que, auxiliado por um aluno da escola, nos encaminhou pelas escadarias e as belíssimas salas, numa visita guiada maravilhosa por este Palácio recentemente restaurado e inaugurado em Março 2015, onde se encontra sediada a Academia Contemporânea do Espetáculo e a Companhia de Teatro do Bolhão.

Ao terminar a nossa visita com direito a um autógrafo do prestigiado ator, alguns AMUT’eiros, ainda continuaram a caminhada até ao Palácio do Comércio, da autoria de David Moreira da Silva, genro de Marques da Silva, situado no cruzamento com a Rua Fernandes Tomás, onde sobressai o conjunto escultórico que ornamenta a fachada voltada para a Rua Sá da Bandeira, representando o “Triunfo da indústria”. 

Continuando a subir a Rua Sá da Bandeira até à Capela de Fradelos, ou Capela de Nossa Senhora da Boa Hora, no local onde, diz a tradição, que em tempos remotos existiu um hospício de monges beneditinos. Aqui encontramos a fonte com a imagem da Nossa Senhora da Boa Hora. O crescimento dos devotos terá estado na origem da construção da capela. A mesma foi recuperada em 1804, pelo reverendo Padre Matos Soares, grande devoto de Santa Teresinha, conforme podemos ver nos azulejos que revestem a capela, da autoria de Paulino Gonçalves, e de Jorge Colaço, que são uma mensagem iconográfica da vida de Teresinha de Lisieux. 

Terminamos a nossa caminhada pelo Porto Moderno, no jardim, perto da capela, junto à escultura da maturidade, ansiosos já pela próxima viagem pela cidade Invicta que nos levará, no dia 08 de agosto 2015, pelo Porto Contemporâneo.